Bart D. Ehrman é um conhecido estudioso americano do Novo Testamento, professor e chefe do Departamento de Religião da Universidade da Carolina do Norte. Ex-evangélico e hoje agnóstico, Ehrman participa de programas e escreve obras em que questiona alguns dos fundamentos básicos do Cristianismo. Em seu livro “O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Quem mudou a Bíblia e por quê?” (título original: “Misquoting Jesus”), Ehrman argumenta que as palavras de Jesus foram tão modificadas ao longo de sua transmissão escrita, que já não podemos mais confiar nas afirmações do Novo Testamento. Veja por exemplo as seguintes afirmações:

“Que bem há em dizer que os autógrafos (isto é, os originais) foram inspirados? Nós não temos os originais! Nós temos apenas cópias com erros, e a grande maioria delas estão separadas por séculos dos originais e são diferentes deles, evidentemente, em milhares de maneiras.”

“Existem mais variações entre nossos manuscritos do que há palavras no Novo Testamento.”

O que há de verdade nas palavras de Ehrman? Primeiramente, deve-se notar que (essa informação poderá chocar muitos cristãos agora) Ehrman está certo em partes: existem 130.000 palavras no Novo Testamento, mas as variantes textuais (as diferentes leituras do texto que nos chegaram pelos antigos manuscritos) chegam a 400.000! Isso realmente ameaça a fé cristã e a confiabilidade do texto do Novo Testamento? Gostaria de apontar alguns dados que Ehrman NÃO nos disse.

1) A Crítica Textual é a área de estudos que tenta reconstruir um texto original a partir de diversos manuscritos. A confiabilidade dos resultados depende das respostas a três perguntas:

  1. quantas cópias existem?;
  2. qual é a idade dos manuscritos?; e
  3. qual é a natureza exata das diferenças ou variantes?

Vejamos como o Novo Testamento se passa nesses três testes.

2) Quando analisamos outras obras históricas, podemos perceber o seguinte: “Guerra dos Judeus”, escrita no primeiro século por Flávio Josefo, sobrevive em nove manuscritos que datam a partir do século V (quatro séculos depois de Josefo). “Anais de Roma Imperial”, de Tácito, sobrevive em apenas dois manuscritos que datam da Idade Média. “Guerras Gálicas” de César sobrevive em dez manuscritos; “História” de Heródoto em oito; e as “Tetralogias” de Platão em sete; todas essas cópias datadas em pelo menos um milênio após o texto original. A “Ilíada” de Homero, obra secular que possui a maior evidência manuscrita, sobreviveu em 647 cópias existentes, sendo a mais antiga de 500 anos após o texto original. Em comparação, o Novo Testamento foi preservado em 5.500 manuscritos gregos, 10.000 manuscritos em latim e 9.300 manuscritos em siríaco, copta, eslavo, gótico e armênio. Além disso, mesmo que não tivéssemos nenhum manuscrito, todo o texto do Novo Testamento poderia ser reconstruído a partir dos catecismos, lecionários e citações dos Pais da Igreja nos primeiros séculos.

3) O Papiro Chester Beatty contém a maior parte do Novo Testamento e é datado de meados do terceiro século. A coleção dos Papiros de Bodmer inclui a maior parte dos primeiros catorze capítulos do Evangelho de João e muito dos últimos sete capítulos e é anterior ao ano 200 d.C. O papiro John Rylands, descoberto no Egito, contém o texto de João 18:31-33 e é datado por volta de 125 d.C. Recentemente, confirmou-se a veracidade de um manuscrito do Evangelho de Marcos, datado entre 80 e 110 d.C. (ou seja, cerca de 30-40 anos após a escrita do texto original).

4) Mas e em relação às diferentes leituras nos manuscritos? Deve-se notar que na verdade, isso é uma vantagem para o Novo Testamento. Outras obras antigas (como as citadas no ponto 2) não possuem muitas variantes textuais justamente por não terem uma grande quantidade de manuscritos para serem comparados. Quanto maior o número de documentos, maior a possibilidade de surgirem algumas discrepâncias no processo de cópia, mas também, maior a probabilidade de se reconstruir o texto original com exatidão.

5) Das 400.000 variantes, 50% (mais de 200.000) são erros ortográficos ou diferentes formas fonéticas de expressar a mesma palavra.

6) Cerca de 49% das variantes ocorrem devido a abreviações ou diferenças de estilo, como a omissão ou inclusão de um artigo (“Tiago” x “o Tiago”), troca na ordem de palavras (“Jesus Cristo” x “Cristo Jesus”) e troca de palavras por outras sinônimas, além da duplicação ou omissão acidental de palavras ou frases.

7) Algumas variações (menos de 1% de todo o material) são teologicamente significativas, levando a alguns questionamentos e discussões sobre a reconstrução correta do texto, mas de forma alguma afetam nossa confiabilidade do texto bíblico, nem qualquer doutrina importante do Cristianismo. Vamos explorar a seguir alguns exemplos.

8) O texto de 1 João 5:7-8, que menciona explicitamente a Trindade [“E há três que dão testemunho no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um”], só aparece em quatro manuscritos, todos datados do século X em diante. É universalmente reconhecido como não sendo parte do texto original, mas um comentário marginal feito por algum escriba medieval, que acabou entrando no texto. Mas a doutrina da Trindade é claramente bíblica, baseando-se em inúmeros outros textos.

9) Ehrman aponta que os textos de Lucas 22:20Lucas 24:12 e Lucas 24:51 b são duvidosos e não estavam no texto original de Lucas. Porém, eles aparecem quase palavra por palavra em passagens não duvidosas (Mateus 26:28 e Marcos 14:24; João 20:3-7; Atos dos Apóstolos 1:9-11).

10) Mateus 24:36 afirma: “Quanto ao dia e à hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai.” Ehrman afirma que o texto original não continha “nem o Filho”, sendo uma inserção realizada por algum escriba. Mas uma vez que não há dúvidas sobre o texto paralelo de Marcos 13:32 (e ele contém “nem o Filho”) e uma vez que “senão somente o Pai” por implicação exclui o Filho, nenhuma “adulteração mal intencionada” pode ser apontada para esse texto.

11) Em João 1:18 há discussões sobre se Jesus é chamado de “Deus unigênito” ou “Filho unigênito”. Ehrman argumenta em favor da segunda opção (embora haja importantes argumentos para a primeira opção), mas de qualquer forma, Jesus é chamado tanto de Deus (João 1:1) como de Filho (João 3:16) ao longo do Evangelho de João.

12) Em 1 Coríntios 5:8 Paulo ordena os cristãos a não terem parte com a perversidade (grego “poneras”) ou com a imoralidade (grego “porneias”)? Uma vez que as duas atitudes são proibidas em outros textos de Paulo, não temos nenhum grande problema aqui.

13) Segundo Apocalipse 1:5 Jesus nos livrou (grego “lusanti”) ou nos lavou (grego “lousanti”) de nossos pecados? Apesar das palavras diferentes, não há nenhuma divergência em seus significados.

14) Acredito que dois grandes problemas textuais, levantados também por Ehrman, sejam os textos de Marcos 16:9-20 e João 7:53-8:11, que têm levado a diferenças de opinião mesmo entre os estudiosos conservadores. Mesmo que questionássemos a autenticidade de ambas as passagens, seus ensinamentos (a ressurreição de Jesus, os sinais milagrosos realizados pelos apóstolos e a graça perdoadora) são claros por todo o Novo Testamento. Vamos primeiramente analisar o texto de Marcos, e no próximo item, o texto de João.

Entre os argumentos que questionam a autenticidade do final do texto de Marcos, estão os seguintes:

  1. esses versículos não constam nos mais antigos manuscritos gregos, bem como em importantes manuscritos em outras línguas;
  2. pais da Igreja como Clemente, Orígenes e Eusébio não pareciam conhecer esse texto;
  3. muitos manuscritos contêm a informação de que esse trecho é uma adição ao texto;
  4. o vocabulário não é o mesmo do restante do Evangelho de Marcos.

Aqueles que argumentam a favor de sua autenticidade apontam que:

  1. esse texto do final de Marcos é encontrado na maioria dos manuscritos bíblicos em todos os séculos;
  2. as antigas versões siríacas e latinas contêm o texto;
  3. Justino Mártir, Taciano, Irineu e Hipólito estão cientes desse texto;
  4. a diferença de vocabulário em relação ao restante do Evangelho se deve à diferença de assuntos (ressurreição de Cristo e a grande comissão aos apóstolos);
  5. é mais fácil explicar o texto como uma omissão em alguns manuscritos do que uma adição posterior que recebeu ampla aceitação.

15) Quanto ao texto de João 7:53-8:11, conhecido como a “Perícope da Mulher Adúltera”, os seus questionadores apontam os seguintes argumentos:

  1. esse trecho não aparece nos manuscritos gregos mais antigos e confiáveis, nem nos melhores manuscritos das mais antigas traduções da Bíblia;
  2. ele não é citado pela maioria dos primeiros pais da Igreja, como Clemente, Tertuliano, Orígenes, Cipriano e Cirilo;
  3. O seu estilo distoa do restante do Evangelho de João;
  4. ele interrompe o fluxo da narrativa de João;
  5. muitos manuscritos indicam ser uma passagem duvidosa.

Por outro lado, apontam-se os seguintes argumentos quanto à sua autenticidade:

  1. C. S. Lewis observou que o registro de Jesus escrevendo no pó tem o sinal típico do registro de uma testemunha ocular (por que notar esse detalhe e não o que estava sendo escrito?);
  2. Eusébio, as Constituições Apostólicas e a Didascalia síria do século III parecem remeter a essa passagem;
  3. o texto assemelha-se muito ao vocabulário grego de Lucas em seu evangelho e em Atos e de fato, em alguns manuscritos, ele aparece em Lucas após 21:38, onde se encaixa bem ao contexto.

Finalmente os textos apontados por Ehrman como duvidosos provam exatamente o oposto do que ele pretende: que, comparando-se os manuscritos, é possível reconhecer os textos duvidosos e reconstruir com precisão o texto original!

Podemos concluir que que nosso Novo Testamento é mais de 99% confiável. Em um texto de 20.000 linhas, apenas 40 linhas levantam algum questionamento, mas nenhuma delas afeta qualquer doutrina bíblica. Podemos confiar plenamente em Cristo quando Ele nos diz que os céus e a Terra podem passar, mas Suas palavras jamais passarão (Mateus 24:35).

Referências

Bart Ehrman, O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Quem mudou a Bíblia e por quê?, Prestígio, 2006.

Brion Nixon, “Dr. Gary Habermas confirms: recent tests on a gospel of Mark fragment possibly provides the oldest New Testament manuscript evidence available.” Disponível em: <http://www.assistnews.net/index.php/component/k2/item/3744-dr-gary-habermas-confirms-recent-tests-on-a-gospel-of-mark-fragment-possibly-provides-the-oldest-new-testament-manuscript-evidence-available>.

Greg Koukl, “‘Misquoting’ Jesus? Answering Bart Ehrman.” Disponível em: <https://www.str.org/publications/misquoting-jesus-answering-bart-ehrman>.

James P. Holding, “Is John 7:53-8:11 Authentic?”. Disponível em: <http://www.tektonics.org/af/adulterypericope.php>.

Josh McDowell e Don Stewart, Razões para os Céticos Considerarem o Cristianismo, Candeia, 1992.

Josh McDowell, Novas Evidências que Demandam um Veredito, Hagnos, 2013.

Josh McDowell e Sean McDowell, Mais que um Carpinteiro, Hagnos, 2014.

Norman Geisler e Thomas Howe, Manual de Dificuldades Bíblicas, Mundo Cristão, 2015.

Vitor Grando, “EHRMAN, Bart D. O que Jesus Disse? O que Jesus Não Disse? Quem Mudou a Bíblia e Por Quê. São Paulo: Prestígio, 2006.” (Resenha) Revista Eletrônica Espaço Teológico, v. 9, n. 15, p. 183-187, 2015.


Publicado originalmente no site O Peregrino Universitário. Reproduzido com permissão.

Autor

Fabricio Luís Lovato

Fabricio Luís Lovato

🏠 Santa Maria - RS
Bacharel e Licenciado em Ciências Biológicas e Mestre em Bioquímica Toxicológica pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM - RS). Atualmente cursa o Doutorado na área de Educação em Ciências (UFSM) e estuda Teologia pelo Instituto Bíblico Batista do Sétimo Dia,

Total de Artigos: 22

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