De onde surgiu a ideia de um Deus supremo? Há realmente apenas duas opções: ou o monoteísmo (mono - “um”, theos - “deus”) era a fé original para os seres humanos desde o início, ou foi uma invenção ou desenvolvimento da religião nas primeiras culturas humanas.

Antropólogos e historiadores da religião, pelo menos desde o Iluminismo europeu, e certamente até o final do século XIX, ensinaram que a idéia de “um Deus supremo” não era original para a humanidade, mas sim um desenvolvimento tardio na história da religião, decorrente do animismo e/ou politeísmo. Hoje, muçulmanos, cristãos e judeus formam as três grandes religiões monoteístas do mundo. Os adeptos dessas três religiões alcançam bilhões de pessoas.

Segundo a Bíblia, Deus criou a humanidade diretamente do pó da terra (Gênesis 2:5-9). No relato de Gênesis, o primeiro homem e mulher (Adão e Eva) desfrutaram de comunhão direta e comunicação com Deus. A comunhão foi quebrada quando os primeiros humanos agiram independentemente de Deus por um ato de desobediência direta ao Seu comando (Gênesis 3). Os resultados desse ato de desobediência foram comunhão quebrada com Deus e o banimento de Sua presença.

Se seguirmos o relato bíblico da história, então, à medida que a população da Terra aumentou, a humanidade se afastou cada vez mais de Deus, e eventualmente, o entendimento de quem Ele era ou se perdeu ou foi substituído pelo politeísmo, a deificação das forças da natureza, ou alguma combinação de ambos.

Em seu excelente livro, In the Beginning God, Winfried Courduan afirma que:

A Bíblia não nos dá uma explicação sobre como a idolatria e o politeísmo surgiram historicamente. Sabemos que Abraão veio de uma linha de pessoas que adoravam um deus da lua, mas não sabemos onde essa cadeia foi quebrada. … Há boas razões para acreditar que havia outros monoteístas ao redor além de Melquisedeque. Além disso, havia várias oportunidades de aprender sobre o único Deus, sem mencionar a probabilidade de haver uma memória viva transmitida ao longo da família de Moisés. [1]

No entanto, em Gênesis 12 aprendemos que Deus não permitiu que a humanidade não soubesse quem Ele era, mas apareceu a um homem na antiga Mesopotâmia chamado Abrão. O historiador F. E. Peters resume:

Em um dado momento no tempo histórico, Ele [Deus] Se dirigiu a um certo Abrão, o xeque de uma extensa família de nômades de ovelhas do Oriente Próximo que estavam acampados no que hoje é chamado de Negev. Adore-me, o Deus disse, e Eu farei de você e dos seus um grande povo. Não foi uma voz única ou solitária; sabemos da evidência abundante que havia outros, muitos outros, deuses naquela paisagem e nas mentes dos contemporâneos de Abrão. Abrão, no entanto, limitou sua adoração a essa única divindade, e o Deus, por sua vez, concedeu seu favor a Abrão, ou Abraão, como foi dali em diante chamado. [2]

Mais tarde, na história bíblica, Deus apareceria mais uma vez, mas desta vez para Moisés, que cresceu no Egito, outra nação de muitos deuses. Na famosa cena da sarça ardente (Êxodo 3), quando Moisés pergunta a Deus Seu nome, Deus diz a Moisés que Ele é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó (Êxodo 3:15). Finalmente, quando Deus dá a Moisés os Dez Mandamentos (Êxodo 20), os três primeiros mandamentos lidam com a natureza do único Deus verdadeiro e o que significa adorar a Ele e a Ele somente (Êxodo 20:3-7).

Essa foi a narrativa de trabalho por pelo menos dezenove séculos até o surgimento de teorias naturalistas e céticas sobre a Bíblia e a ascensão do monoteísmo.

No século XVII, o filósofo holandês Benedict Spinoza publicou o Tratado Teológico-Político em 1670 (também postumamente em 1677). Nele, ele argumentou (entre outras coisas) que toda religião revelada deveria ser analisada com base na razão; não fé cega. Teologia e filosofia devem ser mantidas separadas. Ele negou categoricamente a profecia, os milagres e o sobrenatural. Ele também negou a autoria mosaica do Pentateuco e afirmou que era provavelmente um texto remendado, composto por vários autores.

Nos anos seguintes, estudiosos como Thomas Hobbs, David Hume, Immanuel Kant, Julius Welhausen e muitos outros seguiram Spinoza em sua desconfiança do registro bíblico da história.

No final do século XIX, muitos eruditos haviam desenvolvido sérias dúvidas sobre o relato bíblico da realidade, especialmente a aurora das origens monoteístas da história no Éden.

Wilhelm Schmidt ao resgate!

Wilhelm Schmidt, um estudioso alemão que viveu no início do século XX, argumentou em bases acadêmicas que a religião original dos seres humanos era o monoteísmo. Segundo Corduan, “em 1906, Schmidt criou uma revista chamada Anthropos, [cujo objetivo era] proporcionar aos missionários uma maior conscientização sobre os novos desenvolvimentos no campo da antropologia cultural”. [3] Desse humilde começo e foco na religião, a tese de Schmidt finalmente se desenvolveu em uma obra maciça de 12 volumes, Der Ursprung der Gottesidee [A Origem da Idéia de Deus] (Munster: Aschendorff, 1912-55).

A tese de Schmidt sobre o monoteísmo original deriva do que ele chamou de “método histórico-cultural”. [4]

Tese principal e ideias de Schmidt

Em sua obra massiva de 12 volumes, “Ursprung” ou “A Origem da Ideia de Deus”, Schmidt analisou as principais teorias da religião comparada até os dias de hoje, bem como as teorias do desenvolvimento da religião na etnologia a partir de culturas ao redor do mundo (etnologia é um ramo da antropologia que compara nações e culturas globais e como elas se identificam).

Essencialmente, o argumento de Schmidt para o monoteísmo original “baseia-se no método histórico-cultural através do qual podemos discernir quais dentre as culturas atuais parecem ser as que mais se assemelham às primeiras culturas humanas. Etnologicamente, essas são os que mostram o menor crescimento em sua cultura material. E são precisamente aquelas que exibem formas de monoteísmo” (W. Corduan). Quando todos os dados são peneirados e analisados, Schmidt argumenta que é possível discernir que a crença central das culturas humanas mais antigas era o monoteísmo, ou uma crença no “Deus superior primitivo” [um só Deus]. [5]

Ele escreve:

O objetivo de todo trabalho nas linhas do método histórico não é criar teorias ou hipóteses, mas chegar à certeza científica. Aqui entendemos por “certeza científica” os fatos que compõem nossa imagem da religião primitiva, não de fato como átomos, mas como um todo orgânico e mutuamente interdependente. (…) Se aplicarmos esse critério à massa abundante de dados que podemos agora produzir sobre o Ser Supremo primitivo, a primeira coisa a notar é que a soma total dos fatos é de natureza a satisfazer a soma total das necessidades humanas. [6]

A tese de Schmidt é bem fundamentada em sua extensa pesquisa e análise em estudos históricos, linguísticos e antropológicos. No entanto, sua teoria também se encaixa perfeitamente com o que a Bíblia ensina sobre o monoteísmo original (em Gênesis).

Dito isto, Corduan nos adverte da certeza absoluta além de todas as objeções da teoria do “monoteísmo original” de Schmidt:

Será que nós (isto é, Wilhelm Schmidt e aqueles de nós que apóiam sua causa) realmente mostramos que o monoteísmo original é verdadeiro além de todas as objeções concebíveis? Claro que não. Seria impossível para qualquer humano fazer isso. … Não há empreendimento científico onde eliminar todas as objeções “concebíveis” é o ponto. [7]

O ponto é que existem razões boas e sólidas (além de, mas também em apoio da Bíblia) que são fundamentadas em pesquisa minuciosa e dados de campo, que a humanidade adorava um Deus desde os primórdios da raça humana.

Argumentos teístas são fundamentados na realidade e na Escritura

Embora este não seja o ponto principal do meu texto aqui, a segunda maneira pela qual alguém pode argumentar a favor do monoteísmo original é através de argumentos teístas. Se os argumentos teístas (como os argumentos cosmológico, teleológico e moral) podem ter sucesso em estabelecer o teísmo (a existência de Deus), então o teísmo (apropriadamente definido) seria a posição padrão na história da humanidade, e o ateísmo apenas um desenvolvimento recente.

Em um toque de ironia, então, os chamados monoteístas “primitivos” do Antigo Oriente Próximo [isto é, Abraão e Moisés] estavam mais atualizados e em contato com a realidade do que as elites ateístas modernas sofisticadas e “educadas” de hoje.

A mensagem singular do Cristianismo: a relação quebrada entre Deus e o homem é restaurada em Cristo

Finalmente, uma breve palavra sobre a singularidade da afirmação cristã que é relevante para a questão sobre o monoteísmo original. O Cristianismo tem suas raízes profundamente enraizadas no Antigo Testamento e, como tal, Jesus afirmou ser aquele prometido e predito a partir dos escritos dos profetas do Antigo Testamento (Lucas 4:14-21). Não apenas isso, mas Ele também fez a afirmação audaciosa de que Ele era Deus em carne humana (João 8:21-58), afirmando mesmo que Ele era a manifestação visível do grande “Eu Sou” (o Deus Criador e da Aliança) de Êxodo 3, quando Moisés falou com Deus face a face na sarça ardente. Em João 8 os líderes judeus questionaram Jesus sobre Sua verdadeira identidade.

“Você é maior do que o nosso pai Abraão? Ele morreu, bem como os profetas. Quem você pensa que é? Respondeu Jesus: ‘Se glorifico a mim mesmo, a minha glória nada significa. Meu Pai, que vocês dizem ser o Deus de vocês, é quem me glorifica. Vocês não o conhecem, mas eu o conheço. Se eu dissesse que não o conheço, seria mentiroso como vocês, mas eu de fato o conheço e guardo a sua palavra. Abraão, pai de vocês, regozijou-se porque veria o meu dia; ele o viu e alegrou-se’. Disseram-lhe os judeus: ‘Você ainda não tem cinqüenta anos, e viu Abraão?’ Respondeu Jesus: ‘Eu lhes afirmo que antes de Abraão nascer, Eu Sou!’” (João 8:53-58)

Quando o apóstolo Paulo estava esperando por seus companheiros de viagem em Atenas, ele até fez um apelo aos filósofos atenienses, à sua crença em um “Deus desconhecido” em Atos dos Apóstolos 17

“...pois, andando pela cidade, observei cuidadosamente seus objetos de culto e encontrei até um altar com esta inscrição: AO DEUS DESCONHECIDO. Ora, o que vocês adoram, apesar de não conhecerem, eu lhes anuncio. O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor do céu e da terra, e não habita em santuários feitos por mãos humanas. Ele não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo, porque ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas. De um só fez ele todos os povos, para que povoassem toda a terra, tendo determinado os tempos anteriormente estabelecidos e os lugares exatos em que deveriam habitar.
Deus fez isso para que os homens o buscassem e talvez, tateando, pudessem encontrá-lo, embora não esteja longe de cada um de nós. ‘Pois nele vivemos, nos movemos e existimos’, como disseram alguns dos poetas de vocês: ‘Também somos descendência dele’.” (Atos dos Apóstolos 1723-28)

Paulo então continuou a proclamar a Cristo e Sua ressurreição, enquanto alguns deles zombavam, alguns acreditavam e outros ainda estavam curiosos para ouvir mais (Atos dos Apóstolos 1732-34).

Cristo veio por uma única razão e essa é revelar perfeitamente o Deus cuja comunhão foi quebrada com a humanidade no jardim. Ele restaurou o conhecimento de Deus e ainda mais por Sua morte, sepultamento e ressurreição, mostrou ao mundo como Deus é verdadeiramente.

“Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos ou soberanias, poderes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por ele e para ele. … Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude, e por meio dele reconciliasse consigo todas as coisas, tanto as que estão na terra quanto as que estão no céu, estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz.” (Colossenses 1:15-16, 19-20)

Referências

[1] Winfried Courduan, In the Beginning God: A Fresh Look at the Case for Original Monotheism (Nashville, B&H Academic, 2013), location 5409 in the Kindle Edition

[2] F.E. Peters, The Monotheists: Jews, Christians and Muslims in Conflict and Competition, Vol. 1 The Peoples of God (Princeton and Oxford: Princeton University Press), xix.

[3] Forward in Wilhelm Schmidt’s, The Origin and Growth of Religion: Facts and Theories (Protorville, OH: Wythe-North Publishing, 2014), v.

[4] Ibid.,pp 219 ff.

[5] W. Schmidt, The Origin and Growth of Religion: Facts and Theories (Protorville, OH: Wythe-North Publishing), p. 283.

[6] Ibid.

[7] Win Corduan, In the Beginning God: A Fresh Look at the Case for Original Monotheism (Nashville, B&H Academic, 2013), loc 5809 in the Kindle Ed.


Traduzido por Fabricio Luís Lovato a partir de WAS THERE ONLY ONE GOD IN THE BEGINNING? <https://crossexamined.org/one-god-beginning>.

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