Já é costume. Chega a época das grandes festividades cristãs, como o Natal e a Páscoa, a Revista Superinteressante publica matérias questionando aspectos históricos e teológicos da Bíblia. Dessa vez não foi diferente. Em reportagem de Reinaldo José Lopes, nas páginas 26 a 35 da edição 370 da revista, a Virgem Maria foi a personagem bíblica da vez. Assim afirma a chamada da revista:

A VERDADEIRA MARIA. Ela era mais rica e independente do que reza o mito. Teve pelo menos sete filhos. E dois deles se tornaram líderes religiosos. Conheça a figura humana por trás da Mãe de Deus.”

Gostaria de fazer alguns comentários sobre pontos específicos da matéria.

A Bíblia é um registro confiável?

Embora a Superinteressante sempre busque minar a credibilidade da Bíblia como registro histórico, ela é a fonte mais confiável (para não dizer a única confiável) sobre Jesus, a virgem Maria e o Cristianismo primitivo. John A. T. Robinson, em sua obra ‘Redating the New Testament’, fornece ampla evidência histórica para uma escrita de todos os livros do Novo Testamento entre as décadas de 40 e 60 d.C., o que confirma que são testemunhos registrados por testemunhas oculares. Os apóstolos Mateus e João, que escreveram dois dos quatro Evangelhos, conheceram pessoalmente a virgem Maria, estando aptos a oferecerem informações confiáveis. Lucas, que afirma ter entrevistado muitas testemunhas para escrever seu Evangelho, também pode ter tido a oportunidade de conhecer e conversar com Maria, obtendo informações de primeira mão.

O nascimento virginal foi um erro de tradução?

Segundo a matéria, a doutrina cristã do nascimento virginal teria surgido devido a um erro de tradução. No terceiro século antes de Cristo, a Bíblia hebraica (nosso Antigo Testamento - AT) foi traduzida para o grego, em uma versão historicamente conhecida como ‘Septuaginta’. A profecia de Isaías 7:14 teria sido equivocadamente traduzida. O termo hebraico ‘almah, cujo significado seria ‘moça jovem’, teria sido traduzido equivocadamente para o grego parthenos, cujo significado é ‘virgem’, originando assim a profecia ‘eis que a virgem conceberá’. Contudo, seria tal alegação correta? O termo ‘almah é utilizado no Antigo Testamento para referir-se a moças em idade de se casar, o que na cultura judaica, subentende virgindade. O termo é usado 9 vezes no AT e em todos elas, se refere a uma moça solteira e pura. Ao contrário do que a revista diz, a profecia de Isaías não foi dirigida apenas ao rei Acaz, mas a toda a ‘casa de Davi’ (7.13), o que indica a sucessão dinástica real em Israel, alcançando o seu cumprimento muito além do 8º século a.C., e não apenas à época de Acaz.

Contradições entre os Evangelhos?

O fato de Mateus oferecer informações sobre o nascimento de Jesus que não se encontram em Lucas, e vice-versa, não indica contradições ou uma ‘bagunça’ como afirma a revista. Informações diferentes podem ser complementares, sem serem contraditórias. Nunca em um tribunal o testemunho de duas pessoas será absolutamente idêntico: uma testemunha pode fornecer informações que passaram despercebidas pela outra, ou que não foram consideradas relevantes por ela, sem contradizê-la. Aliás, o fato de ambas as testemunhas oferecerem informações diferentes indica que elas não conspiraram conjuntamente para fabricar sua história.

Jesus teve irmãos?

A matéria refere-se a outros filhos nascidos da virgem Maria, como Tiago e Judas, que vieram a ocupar posições de liderança no Cristianismo primitivo. Vários textos bíblicos referem-se aos ‘irmãos e irmãs de Jesus’, o que tem sido interpretado historicamente pela tradição protestante como filhos biológicos de Maria e José, ao contrário da tradição católica (que vê os ‘irmãos de Jesus’ como seus primos) e da tradição ortodoxa (que vê os ‘irmãos de Jesus’ como filhos de um casamento anterior de José). Embora o termo ‘irmãos’ possa ser usado para indicar parentes próximos (como primos), seu uso mais tradicional é o de irmão biológico, e há no grego um termo específico para indicar ‘primo’, que não é usado no Novo Testamento. Além disso, os irmãos de Jesus são sempre vistos em conexão com Maria. Portanto, concordo com a matéria nesse ponto.

Maria era próspera financeiramente?

Embora a matéria tente insinuar que Maria e seu esposo José possuíam um nível social mais elevado do que o comumente imaginado, o fato de ambos oferecerem um par de rolas ou dois pombinhos como sacrifício no Templo, após o nascimento de Jesus (Lucas 2:22-24), indica sua classe social inferior – esses eram os sacrifícios oferecidos por aqueles que possuíam poucas posses (Levíticos 12:8).

Uma adaptação da mitologia?

A matéria encerra afirmando que Mariam (Maria), mãe de Yeshua (Jesus), é apenas a versão moderna de antigos cultos a divindades femininas, como as deusas da fertilidade. Ora, o que a virgem Maria, Ísis, Demeter, entre outras divindades antigas têm em comum além de serem mulheres e mães? Isso de forma alguma indica plágio ou dependência histórica de uma religião sobre outra. A doutrina do nascimento virginal é exclusiva ao Cristianismo. Além disso, as Escrituras não demonstram de forma alguma uma virgem Maria divinizada ou que seja objeto de culto para os cristãos.

Conclusão

Maria é uma humilde mulher judia, que enfrenta diversas provações, mas diz ‘sim’ aos propósitos de Deus em sua vida. Sua fé, a qual é modelo e deve ser imitada por cada um de nós, é direcionada ao seu filho, o Senhor Jesus Cristo: ‘Fazei tudo o que Ele vos disser’ (João 2:5).

Autor

Fabricio Luís Lovato

Fabricio Luís Lovato

🏠 Santa Maria - RS
Bacharel e Licenciado em Ciências Biológicas e Mestre em Bioquímica Toxicológica pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM - RS). Atualmente cursa o Doutorado na área de Educação em Ciências (UFSM) e estuda Teologia pelo Instituto Bíblico Batista do Sétimo Dia,

Total de Artigos: 22

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