Esta é a segunda parte de nossa série de artigos sobre o porte de armas de fogo sob uma perspectiva bíblica. Neste texto, trataremos especificamente dos ensinos de Jesus que se relacionam com o assunto. [Leia A Bíblia e o porte de armas: Parte 1 - Êxodo 22:2-3]

O SERMÃO DA MONTANHA – Mateus 5:9; 38-42 e Lucas 6:27-31

Os cristãos desarmamentistas têm como elemento basilar de sua apologética algumas falas de Jesus durante o chamado “Sermão da Montanha”. Esse sermão é o primeiro dos cinco principais discursos de Jesus registrado por Mateus, sendo também o maior deles. Seu conteúdo é principalmente ético, exposto em forma de contrapontos entre o ensino de Cristo e o dos fariseus.

Dois textos são particularmente evocados pelos desarmamentistas em defesa de sua visão, os quais citaremos e analisaremos em seguida:

Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus [...] Ouvistes o que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo; não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes.    

Mateus 5:9, Mateus 5:38-42

Para fins didáticos, é útil para nós resumir o argumento desarmamentista construído sobre esses textos, a fim de que possamos lidar com uma unidade de pensamento como ponto de partida para nossa análise. O argumento, basicamente, é que Cristo nos ensina a agir e reagir de maneira pacífica ao mal que nos é causado por outrem, de modo que não podemos responder ao mal com violência, nem com o uso da força e, portanto, nem mesmo com o uso de uma arma.

De fato, o argumento é muito bem construído sobre as bases do senso comum à respeito dos ensinamentos de Jesus, o que por si só define a força dessa tese. No entanto, um olhar mais atento ao argumento verá que há uma incongruência entre as bases do argumento e a aplicação que foi sugerida. A pergunta é: o ensino de Jesus de que devemos agir e reagir pacificamente às atitudes malignas das pessoas inclui crimes praticados contra nossa vida? Podemos extrair do contexto alguma evidência dessa aplicação? Jesus está falando sobre isso?

A partir do versículo 13 até o fim do capítulo 5, Mateus narra ensinos de Cristo que são em si mesmos aplicações dos princípios anteriormente descritos como “bem-aventuranças”. Os versos 13 a 16 servem como uma ponte entre as chamadas beatitudes e a série de ensinamentos nos quais Cristo expõe e aplica a Lei, desfazendo as distorções farisaicas a partir dos princípios dos versos 3 a 12. Ao contrário do que muitos pensam, Jesus não está contrapondo a Lei, mas corrigindo falsas interpretações dela a partir de seus próprios ensinamentos que não estão, de forma alguma, distantes do real sentido da Lei.

É nesse contexto que Cristo faz uma correção da aplicação de Êxodo 21:24 a chamada “Lei de Talião”. No verso 38 ele cita o “olho por olho, dente por dente” e então faz uma aplicação desse princípio, demonstrando como os Cristãos devem reagir a partir de uma atitude pacificadora. O ponto de Jesus é simples: os Cristãos não devem reagir ao mal tendo como princípio uma atitude de vingança, mas sim de paz, evitando ao máximo os conflitos. É o mesmo princípio exposto por Paulo em Romanos 12:18. O fato de Êxodo 21:24 definir que a pena deve ser proporcional ao crime, não nos dá o direito de usarmos esse princípio em qualquer área da nossa vida, ou seja, a ofensa que nos é direcionada não nos dá o direito de ofender de volta.

No versículo 39 Jesus apresenta o princípio: não resistais ao perverso. O termo grego para “perverso” é poneros, que provavelmente tem gênero neutro, com o sentido amplo de mal. Esse princípio de Cristo é o da não retaliação, isto é, não devemos retribuir “a ninguém mal por mal” (Romanos 12:17). Ele então cita quatro exemplos que, a priori, não devem ser entendidos literalmente[1], mas apenas como ilustrações (hipérboles?) de que não devemos nos vingar utilizando Êxodo 21:24 como desculpa. Há duas evidências que nos permitem pensar assim. A primeira é a aplicação prática e literal do verso 42. Dificilmente poderíamos concluir que o cristão deve simplesmente ceder a qualquer pedido que lhe for feito[2], embora uma aplicação literal do verso 39 e 40 exija também uma aplicação literal desse versículo. A segunda, muito mais expressiva, é o exemplo descrito no verso 39. Jesus aparentemente manda que, ao sermos golpeados na face esquerda, devemos aceitar e então oferecer também a face direita (o paralelo segue-se nos versos 40 e 41, nos quais sempre se sugere que façamos além daquilo que nos pedem).  No entanto, quando Jesus foi ferido conforme a narrativa de João 18:22-23, ele não ofereceu a outra face, mas resistiu ao mal, sem contudo, agir com retaliação ou vingança. Nesse sentido, Tasker nos diz que “a doutrina de que o mal nunca deve ser resistido é uma dedução errada deste verso”[3].

Do exposto acima, podemos extrair dois pontos que são importantes para o nosso propósito neste artigo: Jesus pregou a pacificidade em contraponto à vingança e a retaliação, não contra a defesa pessoal e, além disso, o contexto de crimes legais contra a vida (como o roubo à mão armada) não é tratado por Cristo. Se assim for, é evidente que a aplicação desarmamentista desse texto é inválida.

Em relação ao primeiro ponto, está claro que a equivalência que alguns desarmamentistas tecem entre defesa e vingança é ilógico. Vingar-se ou agir com retaliação (no sentido de devolver o dano) é uma atitude motivada por ira, a qual, como se sabe, “não opera a justiça de Deus” (Tiago 1:20). O que chamamos de defesa pessoal tem como motivação o amor (principalmente no caso de defender outrem) e o desejo de viver. Defender é evitar que o mal aconteça; vingar-se é devolver o mal. Não há qualquer correspondência entre essas duas coisas. O objetivo da vingança é tão somente devolver o dano, como uma punição egoísta pelo mal que nos fora causado, e o que Jesus critica nesses versos é justamente o uso indevido de Êx 21:24 para justificar um atitude vingativa. Defender-se de um assaltante não tem como objetivo causar um mal ao criminoso (ainda que isso possa e provavelmente irá ocorrer em tal situação), antes, o objetivo é justamente evitar que o criminoso cause algum mal. O uso da violência no caso de defesa pessoal não está presente no contexto desses ensinos de Jesus, porque esse tipo de violência não se baseia numa resposta vingativa que incita o conflito, mas em uma resposta passiva de preservação da vida. Robertson comenta dizendo que “o Senhor também condena a guerra agressiva ou ofensiva que as nações fazem entre si, mas não necessariamente a guerra defensiva ou a defesa contra roubo e assassinato”[4]. Vingança e defesa pessoal não tem relação alguma entre si.

Isso nos leva ao segundo ponto, pois os ensinamentos de Cristo “tratam de relacionamentos pessoais e não são uma questão de como funciona o estado político”[5]. Essa observação de Darrell Bock é importante, porque a defesa pessoal é geralmente uma prerrogativa concedida também pelo Estado, de modo que o cidadão tenha sua legítima defesa avalizada por políticas de segurança pública. Nesse contexto, Jesus não está fornecendo princípios de como lidar com crimes, mas de como lidar com insultos, ofensas, obrigações legais (como se subentende no verso 41) e até injustiças. Sugerir que o cristão não pode se defender de crimes com base nesse contexto, criando uma falsa dicotomia entre pacificação e o uso de uma violência necessária para evitar um mal[6], é criar uma aplicação muito além daquela pretendida por Cristo. Nos exemplos que Jesus dá entre os versos 38 a 42 (incluindo o paralelo de Lucas) não consta nenhuma cena em que a vida de uma pessoa está em risco, como seria no caso de um crime, mas tão somente narra conflitos que, como pacificadores, podemos e devemos evitar.

Sendo assim, é evidente que a aplicação dos ensinos de Jesus feita pelos desarmamentistas é exacerbada. Não há nada no contexto de Mateus 5:38-42 que fundamente uma proibição de defesa da vida. As bases oferecidas pelos desarmamentistas para o argumento não dão suporte a esse tipo de aplicação, nem pelo contexto e nem por qualquer silogismo.

EMBAINHA A TUA ESPADA! – Mateus 26:47-56; Marcos 14:43-50; Lucas 22:47-53; João 18:2-11

Outro episódio extremamente interessante para o nosso propósito é o ataque de Pedro ao servo do sumo sacerdote na ocasião da prisão de Jesus. Todos os quatro evangelhos narram a cena com pequenas nuances que se complementam. Tomaremos como base o texto de Mateus, usando os detalhes dos demais evangelistas para complementar a análise conforme for necessário.

Falava ele ainda, e eis que chegou Judas, um dos doze, e, com ele grande turba com espadas e porretes, vinda da parte dos principais sacerdotes e dos anciãos do povo. [...] E eis que um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, sacou da espada e, golpeando o servo do sumo sacerdote, cortou-lhe a orelha. Então, Jesus lhe disse: Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão.     

Mateus 26:47 Mateus 26:51-52

O versículo 52 é demasiadamente citado por desarmamentistas, como se Cristo estivesse proibindo o uso de armas para defesa pessoal, demonstrando o axioma de que aqueles que “semeiam violência, colhem violência”. Mas, seria essa uma interpretação coerente do texto? Há boas razões para crermos que não.

O fato que nos chama mais atenção na resposta de Jesus é que a Pedro é requerido guardar a espada e não, como deveria ser o caso, livrar-se dela. Esse detalhe possui muito significado na interpretação do texto. É evidente que Cristo censura Pedro por utilizar a espada em um momento indevido, ou seja, o problema não era o uso da espada, mas o fazê-lo naquela situação específica. Há alguns elementos no contexto que favorecem essa interpretação:

O primeiro é o sentido subentendido da ação de Pedro. É útil lembrarmos que Pedro já havia demonstrado interesse em proteger Jesus da morte, o que seria uma atitude louvável, se não fosse o fato de que a morte de Cristo representasse o cumprimento do plano de Deus (cf. Mateus 16:22-23). Jesus repreendeu Pedro nas duas situações pelo mesmo motivo, isto é, Pedro estava se opondo ao cumprimento dos planos de Deus.

O segundo elemento é a própria resposta de Jesus. Ao contrário do que os desarmamentistas gostariam de ler no texto, Jesus não justifica sua passividade diante daquela situação por uma questão de puro pacifismo. O que ele diz nos versos 53 e 54 é considerável:

“Acaso, pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder?”

O que Jesus está dizendo é que a ação de Pedro é desnecessária. Jesus tinha como se defender, mas escolheu não fazê-lo. Não porque deve-se simplesmente reagir com passividade total em todas as situações – algo que os desarmamentistas podem querer extrair do texto -, mas porque se Cristo agisse em sua defesa, estaria indo contra o cumprimento das Escrituras.

O Dr. Tasker chama atenção para um ponto importante sobre o detalhe que mencionamos anteriormente:

“A injunção dada por Jesus a seu pretenso defensor, identificado com Pedro pelo quarto evangelista, para embainhar a sua espada, porque qualquer tentativa de oferecer resistência pela forca nas presentes circunstâncias seria suicídio, também esta registrada somente neste evangelho.”[7]

Isso explica duas ocorrências no texto: a frase de Jesus e sua ação em curar a orelha de Malco (identificado por João como o ferido – cf João 18:10). Jesus disse que “todos os que lançam mão da espada à espada perecerão” provavelmente referindo-se ao fato de que a ação temerária de Pedro lhe custaria a vida. Se Jesus não tivesse curado a orelha de Malco, provavelmente Pedro seria preso e mais tarde naquele dia haveriam quatro cruzes no calvário, ao invés de três. Jesus não estava citando um axioma generalista do tipo “violência gera violência”, mas dizendo a Pedro que ele estava cometendo uma violência injustificada, já que a situação não lhe dava o direito de autodefesa. Em concordância, Tasker conclui bem o que apresentamos até aqui:

“Deve-se interpretar esse preceito em referência ao contexto em que se encontra, e não considerado, como os cristãos pacifistas muitas vezes o consideram, como uma regra geral que obriga os cristãos em todas as circunstâncias. De fato não é verdade que os lançam mão da espada sempre morrem à espada!”[8]

A censura de Jesus a Pedro não pode ser forçada para um contexto mais amplo, tão mais amplo a fim de ser aplicado, de uma maneira um tanto distorcida, no caso de uma defesa legítima diante de um bandido agressor que oferece perigo real de vida a uma pessoa. Jesus questionou a multidão dizendo “saístes com espadas e porretes para prender-me, como a um salteador?” (Mateus 26:55), de onde podemos inferir que o próprio Jesus indica que a melhor (senão a única) maneira de lidar com salteadores, assassinos e bandidos é com espadas e porretes. A interpretação feita pelos desarmamentistas é errônea e parece desconsiderar o contexto de maneira conveniente, forçando uma interpretação muito mais ideológica (em relação ao pacifismo) do que exegética.

Por fim, é útil dizer que Jesus não nos deixou ensinos mais claros a respeito desse assunto. Embora alguns cristãos armamentistas citem textos que lhes pareçam favoráveis à sua militância pelo direito da autodefesa, tratam-se de versos muito disputados e com considerável ambiguidade, inclusive nos aspectos linguístico e cultural – como é o caso de Lucas 22:35-38. O que podemos dizer, até como conclusão desse artigo, é que embora os desarmamentistas pareçam muito mais servidos de material evangélico para sua posição, na verdade são apenas erros de aplicação dos princípios de Cristo. Os ensinos de Jesus no sermão da montanha e sua censura à atitude violenta de Pedro não podem ser usados como argumentos contra o porte de armas de fogo para defesa pessoal.


[1] LIVINGSTON, G. H. (ed. et al) Comentário Bíblico Beacon 6 – Mateus a Lucas. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. P. 61. 

[2] “Se os cristãos tomassem este dito com literalidade total, haveria uma classe de indigentes santos, que nada possuiriam, e outra classe de desocupados e ladrões prósperos”. MORRIS, Leon. Lucas, Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova & Mundo Cristão, 1981. p. 123.

[3] TASKER, R. V. G. Mateus, Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova & Mundo Cristão, 1981. p. 56.

[4] ROBERTSON, A. T. Comentário Mateus & Marcos. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. p. 75.

[5] BOCK, Darrell L. Jesus Segundo as Escrituras. São Paulo: Shedd publicações, 2006. p. 127.

[6] Geralmente, não vemos problemas em chamar uma tropa de soldados armados até os dentes de “unidade pacificadora”. A pacificidade em situações que podem ser relevadas não tem paralelo legítimo com situações que oferecem risco à vida. 

[7] TASKER, R. V. G. Ibd. p. 199.

[8] TASKER, R. V. G. Ibd. 

Autor

Rafael Nogueira

Rafael Nogueira

🏠 São João del-Rei - MG
Bacharel em Administração pelo Centro Universitário Presidente Tancredo Neves (UNIPTAN - MG), cursando atualmente pós-graduação em Gestão Empresarial pelo Instituto Prominas. Autodidata em Teologia, apologista, escritor e membro da Igreja Evangélica Filadélfia de São João del-Rei.

Total de Artigos: 4

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