Guerras e rumores de guerras fazem parte de nossos dias. Estes problemas sociais trazem sérias consequências as quais são muitas vezes devastadoras para aqueles que sofrem com tal situação. Vivemos dias em que o número de refugiados cresce a cada ano devido aos confrontos no oriente médio, mas não somente nesse contexto, pois muitas pessoas fogem de regimes opressores, da fome, da miséria e da falta de esperança em sua terra natal.

O problema existe e se agrava a cada dia em meio à sérias implicações políticas muito debatidas nos últimos anos. O papel da Igreja torna-se cada vez mais requisitado, quando imagens como a do garoto sírio encontrado morto em uma praia da Turquia no ano de 2015 chocam o mundo. Afinal, como a Igreja deve responder à crise dos refugiados? O que a Bíblia nos diz sobre esse assunto? É importante que os cristãos tenham não só conhecimento, mas também a consciência do seu papel diante desse grave e urgente desafio.  

A VISÃO BÍBLICA ACERCA DOS REFUGIADOS

A influência do pensamento cristão na cultura ocidental no que se refere ao compromisso moral com causas humanitárias é evidente. Isso inclui de forma ampla os problemas decorrentes de guerras, epidemias, crises políticas, dentre outros fatores semelhantes que afetam nações inteiras, causando imensas ondas de imigração. A Escritura tem muito a nos dizer sobre a questão dos imigrantes e tal cosmovisão deve estar sempre visível na abordagem cristã a esse problema.

Deus sempre demonstrou um interesse especial em cuidar dos estrangeiros, revelando que sua graça não está restrita aos limites territoriais ou étnicos de qualquer país, nem mesmo de Israel. Deus, que elegeu o povo de Abraão como sua propriedade peculiar dentre todos os povos da terra (Êx 19:5), ainda sim nos orienta a acolher estrangeiros e tratá-los bem, como se vê em textos como Êxodo 20:21, 23:29; Deuteronômio 10:18-19; Malaquias 3:5; fornecendo inclusive abrigo e alimentação (Levíticos 19:10 33, 34; ver também a referência de Jó 31:32). O Salmos 146 nos diz que “o Senhor guarda os estrangeiros”, uma linguagem muito semelhante a que ele usa para se referir àqueles que nele confiam (Salmos 121:2). Deus se importa com os estrangeiros, de modo que até mesmo seu povo foi estrangeiro na terra do Egito, refugiado na época da fome que devastava o antigo oriente.  Deus engrandeceu José naquela nação e depois enviou toda sua família àquela terra, nas palavras do próprio José, para “conservar vossa sucessão na terra, e para guardar-vos em vida por um grande livramento” (Gênesis 45:7). Deus fez de seu povo um povo estrangeiro, a fim de lhes prover um grande livramento por meio de outra nação – Paulo discorre sobre a ideia de que Deus controla, por sua soberania, o caminho dos povos sobre a terra (cf. Atos dos Apóstolos 17:26-27) e isso é evidência de sua graça para com todos. Desta forma, vemos que o Senhor não só guarda os estrangeiros, mas também abençoa aqueles que os acolhem.

Olhando para o Novo Testamento não temos um quadro diferente. O paralelo claro entre a ênfase de Jesus no mandamento “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39 citando Levíticos 19:18) e o texto de Levíticos 19:33 mostra que o amor ao próximo não pode fazer diferença entre conterrâneo e estrangeiro. Algo também presente na célebre parábola do bom samaritano (Lucas 10:25-37), na qual o próximo toma a forma de toda pessoa que precisa de nossa ajuda e não há como olhar para os refugiados sem vê-los nessa condição. Paulo nos orienta para que “façamos o bem a todos, principalmente aos domésticos da fé” (Gálatas 6:10) e em outra parte “pratiquem a hospitalidade” (Romanos 12:13 semelhante em 1 Pedro 4:9 e Hebreus 13:2). Toda a Escritura nos dá orientações bem claras sobre o tratamento bondoso e solidário que devemos dar aos imigrantes, sempre imitando o amor de Deus (Efésios 5:1).

Por fim, devemos ainda considerar o discurso de Jesus a respeito do fim dos tempos em Mateus 25 que contém a referência mais importante sobre a questão dos refugiados. No versículo 35, Jesus apresenta a hospitalidade para com o estrangeiro como uma das características dos salvos: “era estrangeiro, e hospedaste-me”. Essa virtude era deficitária nos perdidos, para os quais estava reservada a condenação. O principal ensinamento dessa passagem é a identificação do próprio Jesus com os necessitados; deixar de hospedar um estrangeiro é o mesmo que deixar de fazê-lo ao próprio Jesus (cf. v. 44 e 45). Qualquer influência que o cristão exercer nessa questão, seja em sua vida pessoal, em sua comunidade local e até mesmo nas ações do Estado ao qual pertence, devem ser orientadas pela visão de que os refugiados são necessitados com os quais Cristo se identifica. Não podemos ignorá-los enquanto afirmamos amar a Deus; nossa fé exige de nós um posicionamento dentro de nossas possibilidades, sempre conscientes de que estamos prestando um serviço a Deus, capacitados por ele tanto a amar, quanto a agir em favor dos estrangeiros.

JESUS FOI UM REFUGIADO?

Durante a entrevista do candidato à presidência da república Jair Bolsonaro no programa Roda Viva no dia 30 de julho deste ano, o jornalista Bernardo Mello Franco criticou a postura do presidenciável sobre a questão da imigração argumentando o seguinte: “O senhor sabia que Jesus Cristo foi um refugiado?”. A simples pergunta do jornalista foi muito comentada durante a semana seguinte e encontrou muita oposição, principalmente por parte dos cristãos.

No entanto, o fato é que Jesus e sua família foram refugiados durante um período de sua infância. Mateus 2:13-14 narra a fuga da família de Jesus para o Egito sob a orientação do Senhor, que preveniu José das más intenções de Herodes. Eles permaneceram em terra estrangeira até que pudessem regressar à Israel (v. 20). Assim como muitos que hoje fogem da guerra, da fome e de inúmeras calamidades, Jesus também precisou ser amparado em outra nação.

Alguns se opõem a essa ideia, sugerindo que Jesus não fora um refugiado, uma vez que tanto Israel quanto o Egito estavam sob o domínio do império Romano. No entanto, presumindo que o domínio do Império Romano retirasse as fronteiras nacionais do Egito e de Israel, algo que é muito questionável, ainda sim Jesus se encaixaria na definição da palavra refugiado, afinal, ele e sua família se mudaram para outro lugar buscando refúgio.

O real problema na fala do jornalista Bernardo Mello são as implicações de sua declaração. O termo refugiado no contexto da entrevista carregava uma gama de implicações político-sociais que de forma alguma poderiam, sob pena de anacronismo, ser aplicadas a Jesus e sua família. A inferência é que o fato de Jesus ter sido um refugiado automaticamente valida o acolhimento de qualquer refugiado sob qualquer circunstância. Mas essa ideia é completamente absurda! A mesma Lei que prevê um tratamento generoso para com os estrangeiros também exige deles obediência civil (Êx 12:49), o que implica que precisam se submeterem ao nosso sistema jurídico e penal, além de validar mecanismos que rejeitem o acolhimento daqueles que sabemos que são incapazes de conviver sob as mesmas regras ou que apresentem riscos reais à segurança de nosso país.

Já vimos que a prática da hospitalidade e do cuidado com os imigrantes que buscam refúgio em nossa pátria é algo não somente louvável, mas ordenado em toda Escritura. No entanto, isso não significa que devemos agir de maneira leviana, colocando em risco a segurança de nossas famílias - é bom lembrar que o fato de Jesus ter sido um refugiado não implica que todo refugiado é como Jesus, afinal, o refúgio da família de Jesus não causou impactos demográficos nem pôs em risco a segurança dos cidadãos do Egito. Precisamos de uma boa estrutura socioeconômica, a fim de acolher um número de refugiados correspondente à nossa capacidade de tratá-los conforme a Bíblia nos manda. O cuidado e a hospitalidade cristã não podem ser acompanhados de irresponsabilidade e inconsequência. A fala do jornalista Bernardo Mello distorce o contexto político do termo refugiado e o aplica a uma época diferente e sob circunstâncias diferentes, o que é um erro que compromete a validade de seu argumento.  

Por outro lado, à despeito do contexto do termo, o problema dos refugiados é atual e urgente. O fato de Jesus ter sido um refugiado só reforça a identificação de Cristo com os imigrantes necessitados. Em seu artigo How to Respond to the Refugee Crisis [Como Responder à Crise dos Refugiados], o teólogo David Platt declara:

Considere que a primeira história que temos sobre Jesus após seu nascimento é a sua fuga para o Egito, levado a uma terra estrangeira por causa de um rei assassino. Esse Deus não está distante de nós – e ele não está distante da experiência dos refugiados. Não, nosso Deus está conosco. Ele não é estranho ao sofrimento e está familiarizado com nossa dor. Ele não abandonou os exilados e os oprimidos em um mundo de pecado e sofrimento. Em vez disso, ele veio a nós [...] Ele cortou a raiz do sofrimento – o pecado em si mesmo – e derrotou a morte para sempre (PLATT, 2007).

Platt assume o exemplo de Jesus como um ponto de partida para o fato de que a Igreja possui uma missão em relação aos refugiados – uma missão decorrente da vontade do próprio Jesus, que nos comissionou a ser o sal da terra e luz do mundo (Mateus 5:13-16). Como igreja, não podemos fechar os olhos para esses acontecimentos, pelo menos não enquanto nos chamarmos assim.

COMO OS CRISTÃOS PODEM AJUDAR?

É evidente que trata-se de um problema amplo, mas também é fato que os cristãos podem ajudar de algumas maneiras:

  • Orando em favor dos refugiados

A primeira maneira de ajudar é a mais óbvia. A oração ocupa lugar de destaque na vida cristã por ser um dos fundamentos do relacionamento entre Deus e o homem. O apóstolo Paulo nos exorta a praticar “súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens” (1 Timóteo 2:1) e não podemos menosprezar a eficácia de nossas orações (Tiago 5:16), afinal, o Deus que as ouve é Senhor do céu e da terra.

  • Apoiando ministérios e ONG’s de ajuda humanitária

Existem diversas ONG’s e também grupos de missionários que trabalham com ajuda humanitária em campos de refugiados. É possível apoiar esse trabalho financeiramente, como voluntário e também através de ações conjuntas com Igrejas. O trabalho missionário destaca-se também por compartilhar a mensagem do Evangelho com aqueles que sofrem com esse tipo de situação e necessita, como sempre, de nosso suporte para ter condições de continuar. Adotar um missionário pode ser uma maneira de levar esperança e consolo para os refugiados. 

  • Cobrando ações político-sociais por parte de nossos representantes

Nosso papel como cidadãos nos permite, enquanto nossa fé nos orienta, a cobrar uma postura adequada de nossos representantes eleitos, a fim de que respondam à crise dos refugiados de maneira eficiente e responsável.

Por fim, é importante que tenhamos a consciência de que somos todos peregrinos em terra estranha, pois nossa pátria não é neste mundo (Hebreus 11:13-16). No entanto, enquanto estamos aqui, precisamos agir como luzeiros que clareiam o caminho para aqueles que sofrem imersos nas trevas deste mundo. Que sejamos achados por Cristo como aqueles que quando o viram estrangeiro, o acolheram.

REFERÊNCIAS

PLATT, David. How to Respond to the Refugee Crisis. Disponível em: <https://www.thegospelcoalition.org/article/how-to-respond-to-the-refugee-crisis/> Acesso em 28 de agosto de 2018.

Autor

Rafael Nogueira

Rafael Nogueira

🏠 São João del-Rei - MG
Bacharel em Administração pelo Centro Universitário Presidente Tancredo Neves (UNIPTAN - MG), cursando atualmente pós-graduação em Gestão Empresarial pelo Instituto Prominas. Autodidata em Teologia, apologista, escritor e membro da Igreja Evangélica Filadélfia de São João del-Rei.

Total de Artigos: 4

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