Nos últimos tempos, muitos cristãos, creio eu, passaram a perceber que o compromisso assumido com uma ideologia política é mais religioso do que racional. Em tempos de eleição, porém, parece que esquecemos a lição mais uma vez. Assumimos uma tentativa frenética de convencer os não-convencíveis e passamos a apontar para tal pauta política como sendo “a” cristã. Não conseguimos criticar o candidato em quem votaremos e o rotulamos como tendo “a visão cristã correta do Estado”. Ora, como podemos olvidar que a disputa política, antes de mais nada, provém das fontes do coração? Como podemos ser tão absortos por conjuntos de ideias políticas que passam a dirigir toda a nossa linguagem pública em detrimento das Escrituras?  

Partindo dos apontamentos do cientista político canadense Koyzis (2014), podemos dizer que uma Ideologia Política é um conjunto de postulados políticos que isola um elemento da criação divina e o eleva acima dos outros, tendo, supostamente, a capacidade de nos salvar de um mal real ou imaginário. Assim, uma ideologia política é um tipo moderno de idolatria que se aproveita da metalinguagem cristã, criação-queda-redenção, para prometer demais enquanto entrega de menos. Como disse o conservador americano Kirk (2013), “a ideologia é a política da irracionalidade apaixonada”.

O renomado escritor britânico C. S. Lewis (2012) ensinou que a ideologia arranca arbitrariamente dos valores tradicionais alguns fragmentos de verdade e os hipertrofia até isolá-los completamente. E como todo ídolo oco é niilista, sobra apenas a paixão que se casa com a irracionalidade para buscar objetivos políticos.

Pois bem. No liberalismo temos os contratualistas Rousseau, Hobbes, John Locke, os (neo)liberais Von Mises, Hayek, Friedman, e os teóricos da justiça Nozick, Rawls proclamando, com algumas variações e peculiaridades, a soberania do indivíduo. Paradoxalmente, com a promessa da liberdade absoluta cada um é livre para se governar e para ser governado pela mão invisível do mercado ou dos agentes econômicos. Consequentemente, oligopólios, um microfísico controle dos discursos públicos e uma religião civil como única crença pública aceitável mitigam a prometida liberdade.

Em uma parecida estrutura lógica, Karl Marx, Engels e um batalhão de socialistas prometem propriedade comum e igualitarismo econômico com um pequeno-grande custo: o Estado, antes de chegar o momento ideal comunista, precisará ser usado com toda sua força para coletivizar os bens e consumar a revolução. O meio, forçadamente, dá precedência às necessidades da sociedade em detrimento dos desejos do indivíduo. E como que uma religião gnóstica, só alguns conseguem enxergar a opressão para alterar, por meio da força, o ambiente externo que transformará o interno, coletivizando a propriedade pela ditadura do proletariado e suprimindo a individualidade dos sujeitos para, assim, termos felicidade pescando e caçando no reino da igualdade social.

Mas seguir o conservadorismo evitará tais dificuldades? Seguir o princípio da prudência e ceticismo quanto a mudanças sociais nos exime da utopia idolátrica? Edmund Burke, Russell Kirk, até Roger Scruton nos ensinam o quão perigoso são as mudanças revolucionárias. Ainda assim, a preservação do status quo contra mudanças que, supostamente, trarão perdas, e um apego excessivo a um tradicionalismo não constituem uma visão estritamente negativa da sociedade e do Estado? Não negam os bons aspectos da criação divina? Será que não romantizamos demais o passado? Talvez seja por isso que o apego excessivo a tempos outrora incapacita os conservadores de dar uma resposta positiva à comunidade hodierna, os impossibilitando de serem ouvidos.

Nesse sentido, precisamos não apenas apontar, negativamente, os erros de nossa sociedade. O melhor a se fazer é, com base nos valores tradicionais que subsistem a séculos e preservam civilizações, apontar para uma leitura melhor e positiva no tempo que se chama hoje.

Em um sentido cristão positivo, não ideológico-idolátrico, a exemplo de Calvino, Althusius, Kuyper, Dooyeweerd, devemos partir da soberania de Deus sobre todas as coisas, preservando em mente a inexpugnável antítese religiosa entre fé e incredulidade que é contrabalanceada pela graça comum em uma sociedade plural. Disso, famílias, escolas, igrejas, Estado poderão permanecer em suas esferas soberanas derivadas de Deus, sem serem reduzidas uma a outra, ainda que preservem sua relatividade entre si. Sendo assim, todo significado e estrutura da realidade tanto se fundamentam em Deus quanto provêm dEle mesmo.

Jamais devemos esquecer, mesmo em tempos de eleições, que as ideologias políticas permanecem sendo uma tentação para corações que desejam um país “redimido” socialmente. Não se nega, com isso, que cada ideologia tem alguns aspectos de verdade, mas que estes são distorcidos por estarem fincados no prisma do pecado e da idolatria. Para uma crítica total das ideologias políticas, precisamos das Escrituras Sagradas tanto para entender melhor nossos tempos quanto para guardar nossos corações. “Portanto, meus amados, fugi da idolatria” (Paulo, o Apóstolo), 1 Coríntios 10:14.

Referências

LEWIS, C. S. A abolição do homem. – 2ª. ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012

KIRK, Russell. A política da prudência. São Paulo: É Realizações, 2013

KOYZIS, David T. Visões e ilusões políticas: uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 2014

Autor

Anderson Paz

Anderson Paz

🏠 João Pessoa - PB
Cristão, casado com Karol Evangelista, bacharelando em Direito, formado em Teologia.

Total de Artigos: 2

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