Uma das grandes questões políticas debatidas na atualidade é a da legalização das drogas  (ou da maconha, mais especificamente). Os seus defensores apontam os benefícios do uso medicinal da erva, bem como utilizam argumentos de cunho social, no sentido de que a legalização diminuiria o tráfico ilegal, a criminalidade e o próprio uso das drogas. Se você já ouviu esses argumentos ou tem refletido sobre essa questão, gostaria de apontar alguns dados antes de você apoiar a legalização.

Danos à Saúde

O THC (Tetraidrocanabinol), principal composto da maconha, atua em receptores específicos de células cerebrais (receptores CB1) que normalmente reagem a substâncias com estrutura química semelhante ao THC. Entre os efeitos ocasionados por essa ligação, podem-se citar a alteração dos sentidos e da percepção da passagem do tempo, mudanças de humor, prejuízos aos movimentos corporais, danos à memória, dificuldades de pensamento e resolução de problemas, alucinações, delírios e psicose. [1] Um estudo científico apontou que pessoas as quais consumiram cannabis antes dos 18 anos desenvolveram esquizofrenia aproximadamente 10 anos antes do que aquelas que não consumiram. Quanto maior a frequência de uso, menor a idade em que a esquizofrenia começava a se manifestar. Nem o uso de álcool ou a genética preveram um tempo menor, apenas a maconha. [2]

Aumento na Criminalidade

Após a legalização das drogas, a criminalidade organizada na Holanda aumentou, mesmo que não registrada. Os policiais acreditam que a queda na criminalidade registrada ocorreu porque grande parte das vítimas não faz queixa, por temer as vinganças dos grupos organizados. As associações policiais estão preocupadas a ponto de acreditarem que aquele país pode estar em vias de tornar-se um “narco-Estado”. As conclusões de um relatório baseiam-se em entrevistas feitas a 400 detetives e detalham que grande parte do ecstasy capturado na Europa e nos EUA provém de laboratórios localizados no sul da Holanda, geridos por grupos criminosos marroquinos envolvidos na produção de cannabis. [3] No Uruguai, o aumento na criminalidade é associado a tensões pelo controle dos pontos de venda após a redução de parte do mercado ilegal. “Dados extraoficiais do primeiro semestre de 2018 já apontam um claro aumento dos homicídios, com 215 casos no país, contra 131 no mesmo período do ano anterior.” [4] O índice de criminalidade no estado norte-americano do Colorado cresceu 5% em 2016 em comparação com 2013. O percentual de crimes violentos subiu 12,5% no mesmo período regionalmente, mas o aumento nacional foi inferior a 5%. Os dados que apontam o aumento da violência coincidem com a legalização da venda de maconha recreativa no Colorado. [5]

Disputas no Tráfico Ilegal

A legalização da maconha, aprovada em 2013 no Uruguai, não implicou na queda do tráfico e o narcotráfico aumentou o número de assassinatos. “O aumento da taxa criminal, que medimos de 2005 em diante, foi crescendo com base nos fenômenos de oferta e consumo de drogas”, afirmou o Diretor Nacional de Polícia do país [6]. A diminuição do número de compradores que antes recorriam a traficantes fez com que estes passassem a disputar com mais violência o espaço reduzido. Há no país pelo menos 20 gangues ou pequenos cartéis dedicados ao tráfico, que se aproveitam da posição estratégica de Montevidéu para realizar exportações da droga à Europa. [7]

Aumento no Consumo de Drogas

Um estudo abrangente descobriu que as leis que permitem o uso de maconha medicinal se correlacionam com o aumento no uso geral de maconha e dependência para adultos de 21 anos ou mais, mas só aumentam a dependência entre os jovens. Os resultados sugerem que permitir que as empresas vendam maconha leva a maior acesso e uso, principalmente para adultos. [8]

Outro estudo descobriu que depois que alguns estados legalizaram a maconha medicinal, ocorreu um aumento no consumo total de maconha e, para adultos de 21 anos ou mais, um aumento no consumo excessivo de álcool. Esse último dado é particularmente preocupante devido aos problemas sérios de saúde pública e segurança causados pelo alcoolismo. [9]

Um efeito potencial da legalização da maconha é o aumento no seu uso devido à maior disponibilidade, maior aceitação social e, possivelmente, preços mais baixos. A legalização também pode facilitar a introdução de novas formulações de maconha, com efeitos mais potentes. Não se sabe quais serão os padrões de consumo pelos adolescentes se a maconha estiver amplamente disponível e comercializada em diferentes formas, ou quais os efeitos serão observados na cognição, no desenvolvimento de transtornos e doenças psicóticas e no desempenho escolar.  As alegações de que a maconha tem benefícios medicinais criam desafios adicionais para os esforços de prevenção, pois contrastam com as mensagens de seus efeitos nocivos. [10]

Referências

[1] Drug Facts: Marijuana. Disponível em: <https://www.drugabuse.gov/publications/drugfacts/marijuana>.

[2] Ligação entre consumo de maconha na adolescência e psicose se fortalece. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/ligacao_entre_consumo_de_maconha_na_adolescencia_e_psicose_se_fortalece.html>.

[3] Netherlands becoming a narco-state, warn Dutch police. Disponível em: <https://www.theguardian.com/world/2018/feb/20/netherlands-becoming-a-narco-state-warn-dutch-police>.

[4] Legalização da maconha intensifica violência entre traficantes no Uruguai. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/09/internacional/1533827324_546108.html>.

[5] Colorado debate aumento de crimes após legalização da maconha. Disponível em:
<http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-06/colorado-debate-aumento-de-crimes-apos-legalizacao-da-maconha>.

[6] Legalização da maconha não diminuiu tráfico no Uruguai. Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/noticia/legalizacao-da-maconha-nao-diminuiu-trafico-no-uruguai.ghtml>.

[7] Sobe 66% o número de homicídios no Uruguai por causa do narcotráfico. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/09/sobe-66-o-numero-de-homicidios-no-uruguai-por-causa-do-narcotrafico.shtml>.

[8] Rosalie L. Pacula; David Powell; Paul Heaton; Eric L. Sevigny. Assessing the Effects of Medical Marijuana Laws on Marijuana Use: The Devil is in the Details. Journal of Policy Analysis and Management, v. 34, n. 1, p. 7-31, 2015.

[9] Hefei Wen; Jason M. Hockenberry; Janet R. Cummings. The effect of medical marijuana laws on adolescent and adult use of marijuana, alcohol, and other substances. Journal of Health Economics, v. 42, p. 64-80, 2015.

[10]  C. J. Hopfer. Implications of marijuana legalization for adolescent substance use. Substance Abuse, v. 35, n. 4, p. 331-335, 2015.

Autor

Fabricio Luís Lovato

Fabricio Luís Lovato

🏠 Santa Maria - RS
Bacharel e Licenciado em Ciências Biológicas e Mestre em Bioquímica Toxicológica pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM - RS). Atualmente cursa o Doutorado na área de Educação em Ciências (UFSM) e estuda Teologia pelo Instituto Bíblico Batista do Sétimo Dia,

Total de Artigos: 22

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